Toda noite era a mesma coisa. Gritos e choros quase intermináveis já faziam parte da rotina da família, a madrugada caia e os soluços e gritos do filho mais novo sempre apareciam, mais cedo ou mais tarde. As vezes não acontecia, porém chegava a ser ainda pior, pois quando acontecia parecia não ter fim.
Kanope tinha 16 anos e seu irmão Hathor apenas 8. Os problemas na família começaram a aparecer quando Hathor começou a chorar incontrolavelmente durante o sono, até acordar sempre muito suado e assustado, o pavor era tão intenso que até mesmo depois de horas de acordado, seu semblante de medo ainda permanecia. Acordava no meio da noite dizendo ouvir vozes, e as tais vozes o levavam a chorar pelas coisas que, segundo ele, lhe eram ditas, porém nunca se soube o que era, ele tinha medo de dizer, ele nunca tocava no assunto. Hathor foi levado ao hospital por diversas vezes, psicólogos avaliaram seu comportamento como normal, pesadelos de criança que levam a esse tipo de trauma, que com o tempo se vai.
Seus pais não se conformavam, aquelas situações só aconteciam no meio da madrugada, no início achavam que era apenas pesadelos, medo de criança de ficar no escuro sozinho, e conforme a situação piorava, mudaram a cama de Hathor para o quarto de Kanope, para que os dois dormissem juntos. A família torcia para que tudo desse certo, porém não adiantava, Kanope passou a ser atormentado pelos gritos e choros do irmão.
A família era de seis pessoas, Margareth e Rômulo, que eram os chefes da família, pais de Kanope, Hathor e Isis de 20 anos, e a avó das crianças, mãe de Margareth, Sra. Ruth. Também morava com eles as empregadas Maria e Judite.
A casa era grande e arejada, tinha cores claras combinando com revestimentos de pinho amarelo envernizado no chão e nas paredes. Tinha dois andares. No segundo piso era onde ficavam os quartos de Isis, Kanope, Hathor, a suíte da avó, a suíte do casal e o quarto de hóspedes, um corredor com acesso ao sótão, e um banheiro. No térreo ficava a sala de estar, sala de jantar, o escritório da família, a cozinha, dois quartos de empregada, a área de serviço que dava acesso para a garagem, dois banheiros, um armário sob a escada, e ao lado do armário, o acesso ao porão.
Hathor tinha total liberdade para brincar dentro e fora da casa, no enorme quintal, na rua com os vizinhos, e durante o dia comportava-se como a criança normal que era, porém com toda certeza, toda noite, alguma coisa o atormentava de tal forma, a faze-lo tornar-se a criança mais apavorada do mundo.
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