Maria não sabia para onde seu coração tinha ido, a única certeza que tinha era a de que ele tinha partido, para bem longe, ela já não conseguia mais sentir seu cheiro, não ouvia mais seu palpitar.
Era uma moça jovem quando descobriu que era infeliz, 25 anos, inteligente, persistente, estudou, formou-se na faculdade e trabalhava no setor administrativo de uma multinacional, porém via-se perdida, diferente. Vivia num mundo em que era a mais estranha de todas, a mais deslocada, até o mais insignificante dos seres parecia usufruir de mais felicidade que ela.
O amor de sua família já não tinha mais, sua mãe morrera de parto, seu pai fora atropelado por um caminhoneiro bêbado quando Maria tinha apenas 12 anos de idade, ficou em coma por 1 ano e finalmente veio a falecer. Uma enfermeira disse uma vez à Maria que o corpo se vai, apodrece, porém a alma dos pais sempre estaria presente em sua vida. Maria nunca sentiu isso, talvez os espíritos dos pais tivessem apodrecido junto aos corpos.
Porém não era de espíritos nem de cadáveres que Maria precisava. Era de amor, amor físico e real, amor palpável, carnal. Precisava de carinho, de afeto, era isso que ia trazer a felicidade, a auto estima, e todos os outros sentimentos mais espirituais. Sem o amor, sem o toque supremo de um outro ser que a admirasse, Maria não conseguiria nunca ser feliz, ou era isso que ela pensava.
Anos depois Maria chegou a ter esse toque, chegou a sentir esse amor, porém após demasiada espera. Demorou mas finalmente Maria sentiu-se amada, encontrou o amor da sua vida, teve filhos e netos, e então descobriu que o amor viveu esses anos todos dentro dela, descobriu que era e sempre foi feliz, só era incapaz de descobrir esse sentimento, de traze-lo para fora de si e compartilhar com o mundo.
Ao morrer, Maria disse a sua filha mais velha.
-Descobri que a fonte da minha infelicidade não era falta de amor, era falta de amar.
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